Incoerências da Vida 4
O jornalismo tem como objetivo expor fatos, informar. Muitas vezes, a mídia exerce o papel de fiscal da sociedade, denunciando condições ruins para a população. Na faculdade, aprende-se que o jornalista deve ser objetivo, expor fatos de forma imparcial - sua opinião não deve transparecer na notícia.
Sabendo que imparcialidade em jornalismo é impossível (tanto quanto em qualquer outra profissão), aceitamos a visão do jornalista camuflada no conteúdo. Esta aceitação pode ser inconsciente ou consciente. Portanto, sabemos que há parcialidade na produção de conteúdo.
A incoerência ocorre com a falta de humanidade. Vou dar dois exemplos; não citarei de onde (Globo). O primeiro foi na cobertura de uma enchente. Durante a manhã, o helicóptero da emissora sobrevoou o local e narrou o desespero de uma cidadã balançando um pano rosa aguardando socorro, enquanto estava ilhada na porta de casa (água na altura da citura por todos os lados). À tarde, outra matéria atualizou o ocorrido; desta vez, a jornalista disse que a senhora com o pano rosa não estava mais lá, havia desaparecido fazia um tempo. Por mais imparcial, por mais que a função do jornalismo seja informar, como tiveram coragem de ficar gravando aquela mulher desesperada por tanto tempo sem ajudá-la? Se a equipe não sabia como ajudá-la, que fosse buscar quem soubesse (o helicóptero de resgate estava demorando para chegar). Não sei se aquela senhora morreu, mas se fosse jornalista, com certeza não conseguiria dormir à noite sabendo que não fiz nada. Quer dizer, informei aos telespectadores o desespero daquela cidadã… Isso é suficiente?
O outro exemplo é mais recente. Havia, na curva de uma rua, um material espalhado que estava fazendo os carros derraparem (brita). A emissora denunciava a falta de fiscalização e ausência de avisos sobre o perigo. Enquanto isso, exibiam carros e motos derrapando e girando na pista – contei 4 carros e uma moto (isso o total exibido, sem considerar o material bruto gravado que deve ter muito mais que isso). De novo, não é função deles, mas ao invés de ficar gravando as pessoas se acidentarem por que não foram para antes da curva e alertavam aos carros que diminuissem a velocidade, até as autoridades chegarem? Eu sei porque: não mostrar os carros quase capotando não dá audiência.
Trocar a imparcialidade por interpretações pessoais tudo bem. Mas abrir mão da HUMANIDADE, já é sacanagem.