Vigilância Digital e a Previsão de Comportamentos

Postado em Comportamento, Internet, Tecnologia em 27/04/2010 por Gustavo Audi

Em um texto opinativo publicado no jornal O Globo, “A Trapaça do rastreador da Oi no Velox”, o jornalista Elio Gaspari trata sobre uma nova ferramenta da Oi, chamada Navegador, utilizada no serviço de internet Velox. Para ele, esta novidade é uma trapaça, uma dissimulação do seu real objetivo. Na realidade, ela é um rastreador com a função de armazenar os endereços que o usuário navegou em determinado computador.

O registro cria um banco de dados segmentado para, com isso, direcionar a publicidade. A Oi afirma que a identidade do usuário é preservada. O problema está na forma como ele é utilizado. Além de não explicar verdadeiramente a função de rastreamento, a Oi não fornece a opção para o usuário de registrar-se no serviço. Há, no entanto, a possibilidade de desativar a ferramenta. Esta opção, segundo Gaspari, é um absurdo, pois uma pessoa não deveria desativar algo que não solicitou.

O universo digital inaugurou uma nova forma de vigilância e controle. Através desta vigilância, a nossa privacidade é afetada? E mais, como isso afeta o consumo? Será que somos constantemente observados, categorizados e controlados?

Podemos comparar a tecnologia do Navegador – ou similares – com a definição de Panóptico (imagine uma torre de vigilância dentro de um presídio…). Para Foucault, este dispositivo organiza unidades especiais que estão sempre observando e reconhecendo. Além disso, pode ser utilizado como máquina de fazer experiências; atuando no comportamento dos homens sem intervir diretamente. Uma diferença básica entre estes dois dispositivos é que no esquema Panóptico é essencial que o indivíduo saiba que está sendo vigiado (o poder deve ser visível – o vigiado consegue ver sempre o dispositivo – e inverificável – apesar de vê-lo, não deve saber se é observado, mas deve ter conhecimento de que pode ser a qualquer momento) – quando existe este reconhecimento, o próprio indivíduo valida a relação de poder existente e, com isso, pode ser controlado. No caso do rastreador da internet, é fundamental que o usuário não saiba que está sendo vigiado. Saber pode gerar um descontentamento e, pior, uma mudança do comportamento consumidor – para o usuário, reconhecer que o poder não está em si é perturbador. O controle, assim, tem sua eficácia através do conteúdo sugestivo e do reconhecimento de particularidades (usuário se identifica com o sistema criado).

Fernanda Bruno define vigilância digital como o “monitoramento sistemático, automatizado e a distância de ações e informações de indivíduos no ciberespaço, com o fim de conhecer e intervir nas suas condutas ou escolhas possíveis”. Através de programas semelhantes ao Navegador da Oi, as relações de comunicação online geram bancos de dados com informações individuais. Entretanto, simultaneamente a esses dados particularizados, as informações são desvinculadas do próprio indivíduo. Segundo a autora, “o principal objetivo não é produzir um saber sobre um indivíduo especificamente identificável, mas usar um conjunto de informações pessoais para agir sobre outros indivíduos, que permanecem desconhecidos até se transformarem em perfis”.

O perfil, neste caso, expressa as relações entre indivíduos; é mais interpessoal do que intrapessoal. Ele só se torna real quando o indivíduo se identifica ou se reconhece nele. Fernanda chama as identidades projetadas em bancos de dados de duplos digitais ou simulações de identidades, pois não representam o indivíduo, apenas “encarnam múltiplas microrregularidades no seio de inúmeras variáveis heterogêneas e, de modo algum, apresentam-se como regulamentos”.

O site da Amazon usa um programa que cria sistemas de referência e recomendação, cruzando pesquisas, compras e comentários dos usuários. Através de uma análise do banco de dados, cria sugestões e páginas personalizadas (de forma bem grosseira: se A fez X e depois Y, então, se B fizer X, aceitará Y também). Fernanda Bruno chama a atenção de que, desta forma, não são representados os desejos reais dos usuários, mas simulações destes desejos e que, se aceitos, passam para a realidade o que antes era apenas uma potencialidade.

A vigilância digital não se importa com o que o indivíduo fez ou faz, ela usa estas informações para construir um padrão de comportamento e, assim, prever suas novas ações. Não há interesse em desvendar a profundidade da alma, só há interesse sobre os fluxos de informação e comunicação.

Segundo Foucault, a disciplina fabrica indivíduos submissos, controlados, “corpos ‘dóceis” – o poder disciplinar, cuja função maior é o adestramento, controla o corpo, impõe uma docilidade-utilidade que se traduz em obediência. Através da constante monitoração, e posterior criação de padrões, a vigilância digital cumpre um dos seus objetivos: prevenção de um evento. A criação de lógicas de comportamento gera simulações das possíveis escolhas dos usuários de forma performativa e proativa.

A antecipação acaba por intervir nas escolhas, comportamentos e ações presentes, tornando efetivo o que se antecipou. O perfil criado inicialmente acaba sendo o perfil dos futuros usuários (a aparente imposição, neste caso, pode ser encarada como fator questionador da eficácia do processo ). Em suma, o controle exercido pelo Panóptico (se é que podemos chamá-lo assim) atua camuflado nas sugestões.

O armazenamento de dados em ferramentas de rastreamento é feito por máquinas; a quantidade de informação é muito grande para ser processada por homens. Com isso, cria-se um saber do coletivo, pouco importando as escolhas individualizadas. Se realmente considerarmos que o objetivo das empresas é o de prever ações para garantir uma adequação publicitária mais eficaz, então nosso medo de invasão de privacidade é irreal (o fim da privacidade, a divulgação da vida privada, parece ser um movimento feito espontaneamente pelo próprio usuário; como, por exemplo, publicar fotos e dados pessoais em redes sociais ). As informações armazenadas são relacionadas a padrões de comportamentos e não a indivíduos. Todavia, se o medo permanecer, então, como estes sistemas atuam sobre previsões e simulações, basta não clicarmos nos links oferecidos. Assim, não confirmaríamos o que antes era apenas uma suposição.

Referências

BRUNO, Fernanda. Dispositivos de vigilância no ciberespaço: duplos digitais e identidades simuladas. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho “Tecnologias de Informação e Comunicação e Sociedade”, do XV Encontro da Compós, na Unesp, Bauru, SP, junho de 2006. Disponível em http://revcom.portcom.intercom.org.br/ Acesso em 09/04/2010.

_______. Monitoramento, classificação e controle nos dispositivos de vigilância digital. Trabalho apresentado ao GT “Comunicação e Cibercultura”, do XVII Encontro da Compós, na UNIP, São Paulo, SP, junho de 2008. Disponível em http://revcom.portcom.intercom.org.br/. Acesso em 09/04/2010.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 2004

Poder de Transformação em Jogos Eletrônicos

Postado em Comportamento, Jogos em 12/04/2010 por Gustavo Audi

O casamento de duas pessoas apaixonadas não possui nada de anormal. O rapaz pede a moça em casamento recebendo uma resposta afirmativa; uma cerimônia é realizada para celebrar a união do casal. Tudo seria normal se o noivo, que prefere ser conhecido como Sal9000, não fosse um usuário do jogo eletrônico Love Plus, um simulador de encontros românticos, e sua noiva um personagem fictício chamado Nene Anegasaki (veja o video).

Sal teve muitas namoradas no videogame, mas escolheu Nene para ser sua esposa. Ao fazer isso, trouxe para a realidade carnal uma fantasia, um desejo antes realizado apenas no mundo digital. Casar no jogo não é suficiente, casar com o jogo, sim.

Janet Murray, na obra Hamlet no Holodeck, define três princípios estéticos dos ambientes digitais: imersão, agência e transformação. Imersão é a experiência de estar envolvido em uma realidade completamente estranha, de ser transportado a uma simulação que se apodera do sistema sensorial. Agência é a capacidade de agir em um ambiente e ver os resultados lógicos desta ação.

Para o estudo do exemplo dado, o conceito de transformação é importante. Murray define este princípio como a capacidade do computador de gerar mudanças nas formas; tudo no formato digital torna-se plástico, mais suscetível a alterações. Particularmente em ambientes narrativos, este poder de transformação é sedutor para o indivíduo, pois possibilita, e atrai, o desejo pelo uso de máscaras. Ser outro ou incorporar outro faz parte do processo.

As múltiplas representações assumidas pelos objetos no meio digital evidenciam o prazer pela variedade. Além disso, a falta de compromisso existente nos jogos eletrônicos (as decisões não são definitivas, pois se pode começar novamente do início) gera um retorno do usuário ao conteúdo narrativo; desta forma, o mundo passa a ser multivariável. Murray destaca que a estrutura caleidoscópica das narrativas eletrônicas permite apresentar ações simultâneas em inúmeras formas. Uma mesma história pode ser contemplada por diversos pontos de vista para que, no fim, o “interator” possa construir o conjunto narrativo.

As mudanças de formas proporcionadas pelo meio digital possibilitam outra experiência narrativa: a encenação ou construção da história pelo próprio usuário. Assim, é facultado ao interator dar início à história, podendo observar ou participar dela, assumindo qualquer papel. A projeção de conteúdos pessoais e emocionais para o jogo transfere o assunto para um campo no qual é seguro ser pensado. “Trata-se de colocar suas fantasias mais perigosas num calabouço do qual você detém a chave”. O indivíduo, desta forma, passa a ser capaz de exteriorizar suas mais profundas questões emocionais e, então, brincar com elas até que sejam compreendidas.

Através de jogos eletrônicos, o sujeito pode tanto observar experiências quanto vivenciá-las, sempre em um ambiente seguro. Por estar afastado, não corre os perigos de um real relacionamento. Este afastamento se dá de duas formas: através de um ambiente deslocado da ação do jogo (em uma simulação de vôo, por exemplo, quem tem medo de avião não precisa ter medo de morrer). A outra forma é a possibilidade de sempre reiniciar a ação, mesmo após a morte do personagem. Murray afirma que esta “recusa de conclusão é sempre, em algum nível, uma negação da mortalidade”. Os jogos eletrônicos, analisados desta maneira, possuem uma visão divertida em relação à vida, pois apresentam opções em aberto e erros remediáveis.

Sal9000 recriou-se como um galã digital; provavelmente para viver algo que não fazia parte do seu cotidiano – satisfazer o desejo de ser alguém diferente ou de viver a realidade de outra pessoa. Entretanto, quando Sal se casa com um personagem fictício fora do ambiente do jogo, uma nova fase pode ser entendida; o sonho digital transportado para o mundo concreto. Fantasia e realidade se confundem a ponto de questionar a própria relação de consumo (no sentido do uso da mercadoria): em uma situação em que o avatar criado no jogo é projetado para o cotidiano do sujeito, e estes se confundem, o indivíduo consome o jogo ou o jogo consome o indivíduo?

Referências

MURRAY, Janet. Hamlet no Holodeck: o futuro da narrativa no ciberespaço. São Paulo: Itaú Cultural: Unesp, 2003

Subjetividade e tecnologias digitais

Postado em Comportamento, Internet, Tecnologia em 09/03/2010 por Gustavo Audi

Primeiro uma explicação sobre o texto a seguir.

Ele foi feito quando estudava para a prova do processo de seleção do Mestrado. Fiz um estudo e montagem do conteúdo de diversos autores, como Santaella, McLuhan, Castells, Primo, Felinto, Nietzsche etc.

Senti necessidade de publicar aqui em função da realidade que estamos vivendo, através da criação de perfis, comunidade virtuais, avatares. A nossa cultura de exteriorizar a consciencia foi reconfigurada com os filmes Avatar e Substitutos (não por causa deles, mas são um exemplo disto). Precisamos pensar neste desejo do indivíduo de não somente se criar virtualmente, ou criar um novo indivíduo na rede, mas também de trazer para a realidade sensível, independente do próprio corpo, esta outra subjetividade com o propósito de fazer parte de uma nova comunidade.

***

Para a psicologia social, a subjetividade constitui o mundo interno do indivíduo: emoções, pensamentos, sentimentos. Sabe-se, desde Freud, que o subjetivo é uma construção, que se sustentava sobre a ilusão de limites corporais mais ou menos estáveis. O descarnamento da subjetividade provocado pelas novas tecnologias tirou o chão dessa ilusão de estabilidade. A subjetividade moderna se constitui através do jogo de visibilidades e identidades, de olhares e individualidades. A cultura digital desfez a configuração estável e linear do sujeito através da virtualização e hibridização do corpo, de uma nova relação entre e ciência e religião, homem e máquina, e, finalmente, da recriação da subjetividade.

A evolução das tecnologias, juntamente com a atualização da cultura, culminou com a formação de uma cultura digital, também chamada de Cibercultura. Este novo padrão de comunicação pode ser identificado pela operação simultânea de cinco processos: integração (hibridismo), interatividade, hipermídia, imersão e narratividade.

As novas tecnologias digitais e a Internet possibilitaram a criação de um imaginário tecnológico caracterizado pelo conjunto de representações sociais e fantasias compartilhadas que formam nossas concepções sobre as tecnologias. Após a morte da imagem tradicional de Deus, declarada por Nietzsche, o homem buscará a experiência do sagrado na ciência (tecnologia). Uma religião das máquinas forma-se através do imaginário da transcendência visando à superação e aperfeiçoamento do homem através da tecnologia. Mais que extensões do homem, as tecnologias propiciam a ultrapassagem da condição humana.

Duas questões importantes na construção de subjetividades são a configuração do corpo e a formação de identidades (consciências). Uma peculiaridade da espiritualização pós-moderna é a desmaterialização. Na tecnocultura, as tecnologias do imaginário permitem a expansão e construção de consciência e a desmaterialização e hibridização do corpo. Cria-se uma nova visão do ciborg: além do híbrido homem-máquina, acrescenta-se a simulação digital (avatares, cibercorpos digitais).

Na era da eletricidade, nós mesmos nos vemos traduzidos mais e mais em termos de informação, rumo à extensão tecnológica da consciência. Podemos traduzir a nós mesmos em outras formas de expressão que nos superam. O processo de reprodução maquínica do corpo chegou a um ponto em que é o cérebro que está sendo reproduzido parte por parte em computadores.

O tema da mudança dos modos de consciência pode ser acompanhado em dois momentos distintos: mudança da oralidade para a escrita (modelo de consciência tribal, coletiva, apta a lidar com a simultaneidade, cede espaço a uma forma de consciência individualizada, fragmentada, apta a lidar com o seqüencial e analítico); e passagem das sociedades fundadas em torno da escrita para uma em que se organiza em função do advento das mídias eletrônicas (mudança de um modo de consciência individual para um modo conectivo, estendido, exteriorizado e não-linear, capaz de lidar com o simultâneo novamente, porém, de forma ainda mais complexa).

A sociedade informacional produz uma reconfiguração da linguagem, constituindo sujeitos culturais fora do padrão do indivíduo racional e autônomo que caracterizou a cultura impressa. Esse sujeito se transforma na era digital em um sujeito multiplicado, disseminado e descentrado, continuamente interpelado como uma identidade instável, instaurando formações sociais que não podem ser chamadas de modernas, mas pós-modernas. É através da linguagem que o ser humano se constitui como sujeito.

Lacan demonstrou que o ego é, na realidade, uma coleção desordenada de identificações e que a ilusória unidade do eu é uma projeção do imaginário. Com as tecnologias digitais, o sujeito pode exteriorizar estas diferentes identificações. O corpo deixa de ser um limite efetivo da posição de um sujeito; o ego está subvertido e disperso pelo espaço social.

Com a eliminação do corpo, ocorre uma virtualização da subjetividade; as tecnologias do imaginário têm a pretensão de reconfigurar o self, de remodelar as subjetividades. O sujeito pode criar corpos híbridos para cada subjetividade; pode construir personas no ambiente simulado.

Devido às tecnologias comunicacionais contemporâneas (weblogs, webcams, youtube, redes sociais etc), percebemos que a subjetividade é associada aos dispositivos de visibilidade. Se os dispositivos modernos escavavam uma subjetividade interiorizada, os dispositivos contemporâneos vêm contribuir para a constituição de uma subjetividade exteriorizada onde vigoram a projeção e antecipação.

O que define a subjetividade é um campo superficial de atitudes (ações), não uma análise de personalidade (interioridades). É da exterioridade da ação e do comportamento que se extrai ou se projeta a subjetividade, com uma identidade e uma individualidade que não estavam previamente presentes – trata-se de uma subjetividade que se constitui prioritariamente na própria exterioridade, no ato mesmo de se projetar e de se fazer visível. O usuário, assim, constitui suas subjetividades ao criar comunidades no Orkut, expor fotos de sua vida particular, postar vídeos no Youtube gravados através do celular, dizer no Twitter o que está fazendo. Todo esse conjunto de ações exteriorizadas representa a criação de subjetividades que não necessariamente correspondem a sua personalidade prévia.

A tendência inaugurada na Modernidade, através da digitalização e da internet, é a volta da incidência do foco de visibilidade sobre o indivíduo comum, aspecto decisivo na produção de subjetividades e identidades – vide youtube e reality shows. A visibilidade do amador é tão importante quanto à vigilância sobre aqueles que detêm o poder (elites).

O indivíduo na contemporaneidade é múltiplo e, através das tecnologias digitais, consegue exteriorizar esta multiplicidade de consciências em subjetividades virtuais. Uma das consequências mais flagrantes da cibercultura é a formação de comunidades virtuais. Todavia, o indivíduo não tem seu vínculo coletivo nem sua identidade assegurados de antemão pela tradição, por isso deve construí-los através de seu engajamento espontâneo na diversidade das formas coletivas de agrupamento. Com isso, a construção de subjetividades múltiplas e virtuais é fundamental para a inserção do sujeito, agora com identidade imaterial e instável, na coletividade.

Incoerências da Vida 5 – Especial Carnaval

Postado em Comportamento, Incoerências em 19/02/2010 por Gustavo Audi

(já aviso que não gosto de carnaval)

Quando era criança, vestia-me de bate bola com meu irmão e ia para as ruas fazer festa. Ficávamos juntos com a família brincando e comendo durante todo o dia. Depois voltávamos para casa descansar. Quando cresci, passei a viajar no período do Carnaval. O objetivo era sair com os amigos, curtir o feriado e conhecer mulheres. Casei. O Carnaval se transformou em um feriado como outro qualquer; período para descanso e diversão com minha mulher, família e amigos.

Minha relação com o Carnaval nunca foi muito próxima. Para mim, sempre foi um feriado. Não curto samba nem desfile. Minha opinião sobre o Carnaval é a mesma há alguns anos, mas esperei o fim deste carnaval para expor mais esta incoerência.

Há algum tempo, levantou-se a questão sobre a venda de cartões postais com mulheres de biquíni. Acho que criaram uma lei que proíbe a comercialização deste produto. Realmente, o Brasil não é somente bundas gostosas e bronzeadas.

Visto isto, deveríamos também proibir o Carnaval. Afinal, como este período é vendido para os turistas? Revistas e jornais dão destaque às mulheres seminuas; o desfile das escolas de samba sempre possuem mulheres seminuas (além das “madrinhas”); vídeos promocionais são editados mostrando as belezas do Rio de Janeiro, e no meio delas estão as bundas; a televisão faz questão de mostrar as dançarinas, expondo seus corpos sarados e… seminus.

Sou homem. Aprecio ver mulher pelada ou seminua. Mas é uma incoerência o discurso que o brasileiro tem quando falam mal do nosso país (no quesito turismo sexual), cuja uma das ações foi proibir os cartões postais com mulheres peladonas, e apoiar o carnaval, que não passa de um culto ao efêmero, representado pelo corpo nu e o sexo. Não é um pedaço de papelão que influencia a opinião dos estrangeiros sobre nosso país, é todo o clima livre do nosso Carnaval (que não se limita a fevereiro). Para proibir cartões postais, teremos que proibir o carnaval como ele é representado hoje.

Este ano, fui ao desfile das escolas de samba. Pude perceber que por trás de toda a corrupção, ganância, oportunismo, interesses mercadológicos e apelo sexual, há uma pitada de cultura. Os carros alegóricos, as fantasias, a coreografia são bens artísticos no Carnaval. Mas ainda são fracos, em função de tudo que precisam combater para serem apreciados.

Assim como o futebol, o desfile de Carnaval é muito valorizado. Tudo é muito grandioso e, por isso, caro. A incoerência está no cidadão comum, pobre, que luta e sofre para que sua escola seja campeã; enquanto que poucos, muito poucos, lucram fortunas com a competição (carnavalescos e empresas). Na apuração transmitida pela Rede Globo, fiquei espantado com o contraste entre o carnavalesco, bem vestido, com cordões de ouro, relógios caros e óculos mais ainda, e o povão na quadra, suado, sujo e mal vestido. Da mesma forma que no futebol, vale a pena dar o pouco dinheiro suado que o povo tem para que algumas pessoas enriqueçam, e muito? É muita incoerência investir em algo que não trás nenhum benefício real e duradouro, apenas bem estar instantâneo. Realmente, o carnaval (e futebol) são o ópio do povo.

Outra incoerência é o clima de vale tudo. Festejar a liberdade, o fim das amarrar sociais e racionais é nobre, mas não podemos esquecer que nem todos querem libertinagem. As regras ainda se aplicam, apesar do clima dionisíaco. O objetivo deveria celebrar o fim dos limites, mas ainda dentro deles.

Passeando pelos blocos de rua, pude ver carros na contramão, homens e mulheres fazendo xixi, vomitando e brigando, carros estacionados em local proibido, garrafas de água (da bica) custando R$ 3,00, engarrafamento, enorme quantidade de lixo, barulho sem fim… O Carnaval potencializou quase todas as mazelas sociais do carioca – e sempre com o discurso do “vale tudo”.

Para não ser taxado de ranzinza ou mal humorado, também vi coisas boas nas ruas. Vi alegria, felicidade, paixão… Mas meu sorriso se perdeu quando senti o cheiro vindo do banheiro químico e quando percebi que estava parado em cima de uma poça de vômito.

Incoerências da Vida 4

Postado em Incoerências em 06/01/2010 por Gustavo Audi

O jornalismo tem como objetivo expor fatos, informar. Muitas vezes, a mídia exerce o papel de fiscal da sociedade, denunciando condições ruins para a população. Na faculdade, aprende-se que o jornalista deve ser objetivo, expor fatos de forma imparcial - sua opinião não deve transparecer na notícia.

Sabendo que imparcialidade em jornalismo é impossível (tanto quanto em qualquer outra profissão), aceitamos a visão do jornalista camuflada no conteúdo. Esta aceitação pode ser inconsciente ou consciente. Portanto, sabemos que há parcialidade na produção de conteúdo.

A incoerência ocorre com a falta de humanidade. Vou dar dois exemplos; não citarei de onde (Globo). O primeiro foi na cobertura de uma enchente. Durante a manhã, o helicóptero da emissora sobrevoou o local e narrou o desespero de uma cidadã balançando um pano rosa aguardando socorro, enquanto estava ilhada na porta de casa (água na altura da citura por todos os lados). À tarde, outra matéria atualizou o ocorrido; desta vez, a jornalista disse que a senhora com o pano rosa não estava mais lá, havia desaparecido fazia um tempo. Por mais imparcial, por mais que a função do jornalismo seja informar, como tiveram coragem de ficar gravando aquela mulher desesperada por tanto tempo sem ajudá-la? Se a equipe não sabia como ajudá-la, que fosse buscar quem soubesse (o helicóptero de resgate estava demorando para chegar). Não sei se aquela senhora morreu, mas se fosse jornalista, com certeza não conseguiria dormir à noite sabendo que não fiz nada. Quer dizer, informei aos telespectadores o desespero daquela cidadã… Isso é suficiente?

O outro exemplo é mais recente. Havia, na curva de uma rua, um material espalhado que estava fazendo os carros derraparem (brita). A emissora denunciava a falta de fiscalização e ausência de avisos sobre o perigo. Enquanto isso, exibiam carros e motos derrapando e girando na pista – contei 4 carros e uma moto (isso o total exibido, sem considerar o material bruto gravado que deve ter muito mais que isso). De novo, não é função deles, mas ao invés de ficar gravando as pessoas se acidentarem por que não foram para antes da curva e alertavam aos carros que diminuissem a velocidade, até as autoridades chegarem? Eu sei porque: não mostrar os carros quase capotando não dá audiência.

Trocar a imparcialidade por interpretações pessoais tudo bem. Mas abrir mão da HUMANIDADE, já é sacanagem.

Leitura, Respeito Social e a Televisão

Postado em Comportamento, Televisão em 23/12/2009 por Gustavo Audi

Na faculdade de comunicação, em aulas de roteiros televisivos, os professores sempre falavam sobre como a linguagem audiovisual é fugaz e, para facilitar a assimilação, deveríamos ser simples. Desta forma, ao preparar um roteiro, o conteúdo deve ser o mais simplificado para que o espectador consiga entender o que está passando – o ritmo não pode ser muito rápido, pois dificulta o entendimento (e a vontade de assistir). Para comprovar esta medida, o professor perguntava aos alunos o que eles assistiram na noite passada – alguns respondiam; depois, passava para duas noites anteriores – menos pessoas sabiam; e assim por diante. Quando perguntava sobre o que foi assistido, as respostas eram sempre gerais (quando respondidas), sem detalhes – o conteúdo assimilado era apenas o resumo do resumo do resumo.

O raciocínio obedece à seguinte lógica: telespectador não se esforça, tem dificuldades para assimilar um conteúdo complexo, portanto, a linguagem deve ser facilitada. Infelizmente, este modelo já está consolidado, se tentarmos alterá-lo, o índice de audiência despenca (e empresário nenhum vai trocar audiência – ou seja, espaço valorizado para publicidade – por um conteúdo inteligente).

Estabelecer um patamar linguístico possibilita atingir um maior número de pessoas. A comunicação de massa ganha em receptividade, entretanto perde em aprendizado. Exemplo claro é o que acontece com o jornalismo. As matérias não podem ser detalhadas, não há espaço para isso; e não podem ser complexas, quem assiste não entenderá (risco de trocar de canal).

 

Pipoca de Microondas

Assistir televisão é legal, no entanto não deve ser a única fonte de informação e entretenimento. A linguagem televisiva não nos obriga a pensar, a passividade existe e faz parte das entranhas da mídia televisiva – e não adianta colocar “interatividade”, pois nós assistimos televisão, não usamos televisão.

Ela é uma ótima fonte de entretenimento. E só. Sobre questões mais sérias, como educação, ela atua apenas de forma introdutória. Ninguém deve basear um argumento apenas em cima de algo que viu na TV. Quando uma mensagem é passada, antes de chegar a uma conclusão, outras fontes devem ser consultadas.

Eu, particularmente, não acho errada a existência de novelas ou qualquer formato boçal de informação. O problema está quando a televisão é a única fonte de informação do brasileiro. Só ver televisão é perigoso, pois sua linguagem somada a interesses publicitários (esta é uma outra questão que não discutirei aqui) geram um conteúdo instantâneo e beirando a inutilidade. Televisão é igual pipoca de microondas: fica pronta rápida, é gostosa, mas não alimenta.

Bom Senso

Não faço campanha para mudar a linguagem da televisão. Ela é assim e pode continuar, mas da mesma forma que não podemos comer no McDonald’s em todas as refeições, não devemos ser monopolizados pela TV. Existem outras fontes de informação. Uma delas, e para mim, a melhor, é a leitura. Esta, sim, deveria ser a principal fonte de conhecimento do cidadão brasileiro.

Acredito que, ao contrário da televisão, a leitura estimula o cérebro, incentiva o raciocínio e exercita o pensamento crítico. Ao ler, você é obrigado a fazer conexões, comparações, valorações, que exercitam a inteligência e permitem cada vez mais o acúmulo de informação. Na TV, há informação, mas esta não se transforma em conhecimento ou sabedoria.

Muitos dos problemas da sociedade brasileira existem em função da falta de discernimento das pessoas. Assalto, lixo nas ruas, corrupção, agressão… Se a população tivesse mais respeito pelo próximo, tivesse noção que o público pertence a todos (e não a ninguém) nada disso aconteceria – diminuiria, pelo menos, pois temos que pensar nas pessoas que são assim por natureza. Podemos criar uma sequencia lógica para buscar uma solução: leitura gera educação; educação estimula o raciocínio; que por sua vez, possibilita um pensamento crítico; o pensamento crítico permite o bom senso; e o bom senso causa o respeito social.

Não estou afirmando que a televisão é culpada pelas mazelas da sociedade, nem que ela as estimula (com certeza, não contribui em nada para mudar este cenário). Ao invés de investirmos em TV digital, deveríamos criar políticas públicas de esclarecimento sobre a importância da leitura. Pais deveriam ensinar e estimular seus filhos a lerem. Poderia haver isenção fiscal sobre a comercialização de livros e periódicos.

Se nossos adultos começassem a ler e nossas crianças aprenderem e mantiverem-se no mundo da leitura, a sociedade iria, aos poucos, progredir. Não precisamos abdicar da televisão, ou qualquer entretenimento fácil. Também, o respeito social não precisa necessariamente vir da leitura, pode vir de várias outras formas. Fundamental e urgente é iniciarmos uma campanha de conscientização não somente pela leitura, mas pela busca do bom senso. Precisamos desligar a televisão e buscar por fontes que realmente possam contribuir para o nosso crescimento intelectual.

A sociedade brasileira precisa disto.

Amadorismo na Rede

Postado em Comportamento, Internet em 26/11/2009 por Gustavo Audi

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Através da digitalização da informação e, em consequência, da convergência das mídias e seus protocolos de comunicação, criar nunca foi tão simples. O cidadão produz um vídeo ou um texto com a mesma facilidade com que o contempla – câmeras digitais, laptops, desktops populares, filmadoras, toda uma parafernália tecnológica cada vez mais próxima financeira e operacionalmente do indivíduo comum. A internet fornece o espaço necessário para que todo esse conteúdo apareça e multiplique-se e ainda incentiva nova produção.

Este é um belo discurso se analisarmos superficialmente apenas a questão quantitativa. A ideia de acesso público e democrático e da produção personalizada de conteúdo seria perfeita se não houvesse outro lado a se estudar: a qualidade. Analisar a questão da qualidade do conteúdo pode levar a uma interpretação completamente diferente, oposta muitas vezes, do pensamento cibercultural “otimista” – além disso, pode levar também a toda uma revisão sobre a quantidade de informação presente na internet. Pensamentos opostos não necessariamente invalidam-se; neste caso, a complementaridade deve se fazer presente para se chegar a um discurso comum, aceitável para ambos os lados.

O livro “O Culto do Amador”, de Andrew Keen, é bastante útil para se pensar sobre a qualidade do conteúdo na rede. Sua leitura serviu, para mim, como um ótimo exercício de contra-argumentação das críticas à internet (em sua maioria, para cada observação há uma réplica). A obra trata basicamente do conteúdo feito e disseminado por amadores e como isso está afetando nossa economia e vida social.

Apesar de ser embasado em pesquisas, o texto é cheio de preconceitos e, acima de tudo, recalque – algo aconteceu com Keen que o fez mudar completamente de “lado” (se é que podemos definir desta forma). Ele era um empresário do Vale do Silício que ficou decepcionado com a Web 2.0; a partir daí, seu discurso passou a ser de descrença total e crítica. Seus motivos não importam, apesar de visivelmente influenciar sua opinião, pois interessante são suas observações, que, embora preconceituosas e exageradas, levantam questões interessantes. Particularmente, não discordei de boa parte delas, apesar de ter considerado-as, muitas vezes, extremistas ou incompletas.

Importante é entreter

O desejo pela visibilidade encontrou nas novas tecnologias de informação e comunicação um terreno farto para o culto ao “eu”. Todos querem aparecer, exteriorizar suas opiniões e criações. Seja através do Orkut, blogs ou Flickrs da vida, o propósito sempre será de se autopromover – o interesse, no fim, mesmo camuflado, é aparecer. O Youtube (alvo fácil de Keen) representa toda essa cultura do amador: vídeos feitos por amadores e para amadores. No entanto, uma crítica que o autor faz, por exemplo, é o fato de nem sempre a produção ser feita por indivíduos comuns. Ele chama atenção aos vídeos falsos, de autoria de profissionais que se fazem passar por amadores, com propósitos publicitários. Esta enganação o desagrada, algo que não acontece na mídia tradicional. Lá, para ele, tudo é mais claro: o conteúdo é feito por profissionais, revisado por especialistas e publicado de forma objetiva, concreta e transparente. Para mim, esta opinião é bastante infantil. Achar que os jornais e radiodifusores possuem conteúdo de qualidade por ter sido feito por profissionais é risível. Alguém realmente acredita que não há manipulação na mídia tradicional?

Vamos a exemplos. Na TV, temos o Big Brother Brasil. Eu dou o meu rim se aquele programa não é manipulado, não há edição tendenciosa ou orientação da produção sobre os participantes. Em jornais, para usar algo mais concreto, no dia 21 de outubro de 2009, foi publicada uma notícia sobre um jovem, portador de deficiência mental, que teve seus dentes extraídos desnecessariamente no dia 24 de setembro. Por que, então, publicar uma notícia sobre algo que ocorreu quase um mês antes? Na página seguinte, havia uma propaganda ocupando mais de 80% do espaço sobre OdontoPrev e Bradesco Dental. Coincidência?  Acho que não…

O que tem que ficar claro é que tanto na mídia tradicional quanto na internet, o indivíduo está exposto a interesses pessoais, políticos e mercadológicos. Os vídeos falsos do Youtube que Keen denuncia são produções de grandes corporações, as mesmas que na mídia tradicional fazem um conteúdo “honesto”. Está errado gostar disso? Se o McDonald’s pagou secretamente para uma produtora publicar um vídeo viral, mas este vídeo é interessante e divertido, que me importa se ele possui propósitos publicitários? O BBB é falso e mesmo assim é assistido; as sinopses dos capítulos das novelas saem no jornal de domingo, mas mesmo assim as pessoas acompanham durante a semana.

Keen afirma que “a verdade está sendo ‘achatada’ à medida que criamos uma versão sob solicitação, personalizada, que reflete nossa própria miopia individual”. Miopia individual ocorre em qualquer momento, acreditar que um jornalista é objetivo em seu texto é iludir-se com a ideia de uma utopia ética – não há como fugir de interpretação, seja na internet ou na mídia tradicional.

Forjado ou não, o que o indivíduo quer é entretenimento barato.

Conteúdo amador

O discurso de Keen não está de todo errado ao criticar o conteúdo produzido por amadores. É muito diferente quando se produz com o desejo de aparecer publicamente e quando a preocupação é criar algo com aceitação pública. Além disso, fazer simplesmente não gera qualidade. Um garoto que publica um vídeo no Youtube não é um diretor; da mesma forma que um blogueiro não é um acadêmico ou um jornalista.  Nestes casos, ao ler um artigo, uma notícia ou ver um vídeo, tem-se que ter em mente a questão da experimentação – experimentar novas informações, opiniões, mas saber colocá-las, a princípio, no devido lugar. Claro que esta visão crítica deve ser aplicada a qualquer conteúdo, inclusive aos produzidos pela mídia tradicional.

O amplo acesso ao conteúdo amador (e pretenso profissional) diminuiu a importância do intermediário, do caça-talentos. A indústria fonográfica já sofre com isso, pois um número crescente de músicos consegue expor seus trabalhos sem precisar de uma editora ou gravadora por trás. Teoricamente, a oportunidade aparece para todos – somente a oportunidade, pois, de fato, o retorno financeiro e reconhecimento social só chegam se o artista se aliar a mídia tradicional (neste caso, uma gravadora).

A visão de Keen é completamente contrária, para ele “o talento é construído pelos intermediários. Se ‘desintermediarmos’ essas camadas, poremos fim ao desenvolvimento do talento também”. O público amador é incapaz de escolher o que é bom e o que não é (justifica através da teoria de que as massas não são sábias – e eu nem me atrevo a discordar). Infelizmente, mais uma vez, o autor peca pela revolta. Na realidade, o amador não pretende, ao escolher o que é de qualidade, definir os blockbusters; o que ele quer é compor seu acervo cultural com produtos satisfatórios para si. Hoje, temos a oportunidade de avaliarmos nós mesmos o que estamos acessando, a seleção é feita de acordo com o que nós queremos e não de acordo com o que um especialista acha que será de bom gosto.

Ctrl C e Ctrl V

O fato de a produção de conteúdo estar nas mãos de todos (o consumidor também é autor) gera um crescimento da quantidade de informação, somada ao crescimento do número de internautas dispostos a criar. A tecnologia digital, através de seus protocolos de comunicação e compressão de dados, criou o ambiente perfeito para o armazenamento e recuperação da informação. Em 2008, o volume de informações digitais atingiu 453 exabytes, 61% a mais que a quantidade de dados digitais calculados em 2007. Logicamente, isso nos faz acreditar em um mundo criativo, comprometido com a produção e disseminação da informação. Todavia, não é tão simples assim. O número de weblogs registrados no Technorati (buscador de blogs) desde 2002 ultrapassa 133 milhões. Destes 133 milhões quantos realmente produzem conteúdo próprio? Uma prática comum na internet é o famoso “ctrl C ctrl V” (copia aqui e cola exatamente a mesma coisa ali) – neste caso, a cópia nem precisa ser exata, pega-se a ideia e muda-se o suficiente para parecer nova produção. Boa parte dos blogs que leio usa a mesma fonte (um mesmo autor publica em diferentes sites). Com a tecnologia do mashup, não é nem mais necessário copiar e colar, basta acrescentar o código de programação que o conteúdo aparece automaticamente. Com isso, a quantidade de informação não se reflete em relevância, mas em abundância desnecessária e duvidosa. Boa parte do conteúdo é lixo pessoal (lixo no sentido de que não acrescenta em nada à massa que não conhece o autor daquele conteúdo) ou cópia – a verdadeira criação fica nas mãos de poucos que, em sua maioria, ainda são os profissionais e especialistas. Para Keen, o amador não pensa, copia. Não acho que seja este extremo. Acredito que ocorra preguiça ou otimização de tempo (o amador na internet é profissional em outro lugar): se alguém já escreveu sobre aquilo, não há necessidade de perder tempo para produzir a mesma coisa. A análise e interpretação ocorrem, o que não ocorre é a exteriorização de um pensamento. Copia-se e cola-se. (Quero deixar claro que não defendo esta ideia, apenas estou especulando sobre possíveis justificativas do comportamento.)

Este pensamento preguiçoso, acomodado, aliado à formação de comunidades e grupos de afinidade, desestimula a discussão, a troca de opiniões diferentes. A web, nestes casos, “é usada para confirmar nossas próprias ideias e nos aliar a outros com a mesma ideologia (…) as únicas conversas que queremos ouvir são as que temos com nós mesmos e com os que se parecem conosco.” Como exemplo, podemos pegar uma comunidade sobre o Fluminense no Orkut: os integrantes discutem sobre temas relacionados ao seu time; todos, teoricamente, são tricolores e, portanto, as conclusões chegadas ao fim dos debates são completamente influenciadas pela paixão e, ainda por cima, limitadas, já que os participantes possuem opiniões parecidas.

As poucas informações verdadeiramente apuradas e legítimas se perdem em um mar de “achismos” e erros, que se multiplicam em fóruns de discussão, este sim míopes, sobre a existência de outras correntes de pensamento – com isso, muitos de nós possuímos opiniões fortes, baseadas neste suposto acesso a uma rica variedade de informação, apesar de, na maioria, sermos completamente despreparados intelectualmente.

A facilidade operacional de cópia, aliada à cultura livre e cooperativa que fundou a base da internet desde sua criação em meados da década de 60, gera problemas maiores que a simples repetição: plágio e pirataria (repetições não autorizadas com ou sem ganho financeiro). Keen defende a ideia de que a pirataria está acabando com a economia e com as mídias tradicionais – afirma que a “mídia antiga está ameaçada de extinção”. Eu não seria assim tão radical: a pintura não acabou, nem a fotografia, o cinema ou a televisão… Obviamente, a pirataria e o conteúdo feito pelo usuário impactam diretamente no consumo dos conteúdos tradicionais, mas não a ponto de exterminá-los. Como sempre ocorreu na história da comunicação, a criação de uma mídia influencia as outras (e é influenciada), que são obrigadas a se adaptar – e com elas, as instituições relacionadas. Como exemplo, Keen usa o fim das lojas de CDs: lamenta-se pelo fato da pirataria musical acabar com um espaço genuinamente tradicional – queixa-se que pelo computador não há a mesma troca social que ir a uma loja e conversar com o vendedor, um “especialista amador” sobre o assunto. Claro que sempre haverá baixas no processo, seja lojas de CD, locadoras de DVD ou jornais em papel, no entanto este não deixa de ser um passo importante para a evolução da comunicação e do comportamento. Infelizmente, as indústrias terão de se adaptar, mesmo que isso cause diminuição nos lucros (melhor ganhar pouco que não ganhar nada).

Somos macacos?

De qualquer forma, o amador está em evidência. Keen exagera ao comparar os internautas amadores a macacos. Usando o “teorema do macaco infinito” de T.H. Huxley, que afirma que se fornecermos a um número infinito de macacos um número infinito de máquinas de escrever, alguns macacos em algum lugar vão acabar criando uma obra prima, Keen considera que pouco se aproveita do material produzido pelo usuário amador. Percentualmente ele pode estar certo, entretanto, devemos ver o conteúdo amador como exercício cultural, não como referência de qualidade. O estímulo à produção deve ter como objetivo a valorização da própria cultura, não a substituição das obras profissionais. Com o tempo, e prática, o amador pode se transformar em um profissional – errado é considerá-lo um produtor simplesmente por produzir ou incapaz por não ter feito um curso.

A liberdade de escolha nunca esteve tanto nas mãos do usuário, é ele quem define o que é bom e ruim. E é isso que ofende algumas pessoas: como um não especialista pode saber o que é melhor?  Talvez o que falta para os críticos é perceber que gosto é pessoal e, portanto, ninguém mais qualificado para julgar um produto que o próprio consumidor. Não sou contra o especialista, mas o que é mais eficaz para avaliar um conteúdo: a opinião de uma pessoa sobre o que a maioria deve querer ou o que de fato a maioria quer?

Tempos nostálgicos

Além da valorização da própria especialização, a crítica à internet e às novas tecnologias ainda se baseia na nostalgia. Lembrar-se de um tempo em que as coisas deram certo faz bem, o problema está quando não se quer sair deste cenário. No meu tempo (que não é tão antigo assim), corria para o jornaleiro comprar minhas revistas em quadrinho; hoje, posso baixar em pdf as últimas edições. Passava horas na locadora conversando sobre filmes e pedindo para o funcionário dicas de filmes legais; hoje, posso baixar (apesar de ilegal) qualquer filme ou alugar diretamente da internet, não preciso sair de casa. Keen fala sobre o fim das lojas de CDs e dos livros em papel como se fossem fundamentais para qualquer ser humano. Eu gosto destes lugares, pois cresci com eles (são importantes para mim), mas e aqueles que já nasceram em uma época virtualizada? As crianças de hoje não passaram pelas instituições tradicionais como únicas fontes de informação e, assim, não sentirão falta delas como nós. A necessidade da existência da mídia tradicional está fortemente vinculada à manutenção do poder. Os livres acesso e produção prejudicam aqueles que trocavam a informação (filme, música, livro, noticias) por investimento (ingresso, CD, DVD, audiência…).

A mídia tradicional, após parar de reclamar sobre os prejuízos do conteúdo amador e da livre distribuição da informação, percebeu que isso pode ser mais uma ferramenta lucrativa. A adaptação veio através do uso da força de trabalho barata (para não dizer gratuita ou colaborativa) em benefício próprio. Quando um jornal utiliza a foto de um leitor amador para fazer uma denúncia está economizando tempo e dinheiro e ganhando em furo jornalístico. Quando um programa de TV utiliza imagens do Youtube ou estimula o envio de vídeos está aproveitando a disposição do usuário para ter menos trabalho e custos. O que a mídia tradicional dá em troca? A simples satisfação de ver o próprio trabalho sendo divulgado? Keen dá um bom exemplo ao citar uma campanha que premiaria o melhor comercial feito pelo público. O prêmio era de valor bem pequeno, se comparado ao orçamento de uma agência profissional. No fim, um comercial feito com pouco orçamento (valor do prêmio), utilizando o apelo amador (“feito por você”) teve um retorno muito grande para a empresa, em termos de venda do produto anunciado. Aqueles que ainda reclamam da situação no mundo digital é porque não pararam para pensar em um novo modelo de negócios (preguiça, incompetência ou orgulho? Tanto faz).

E por fim…

Acredito que, antes de estimular a produção própria, a rede deveria facilitar o acesso a obras culturais consagradas (aquelas validadas pela mídia tradicional). O acesso à cultura ajuda a produção de qualidade. Um rapaz que assistiu a filmes clássicos ou boas produções com certeza está muito mais capacitado para produzir um curta-metragem com qualidade que outro que só assiste a novelas… O crescente número de informação de qualidade criará um novo mercado para a produção de conteúdo qualificado; a internet, assim, poderá ser vista como mais uma mídia profissional.

A indústria digital precisa amadurecer, sair do amadorismo “copia e cola” para realmente produzir conteúdo. Hoje, ainda, apesar de boicotar, assumidamente ou não, a indústria tradicional, a digital precisa do mundo analógico e suas instituições consolidadas. Uma banda só faz sucesso realmente (com retorno financeiro por seu trabalho) ao ser “incorporada” pela mídia tradicional (gravadoras, emissoras de TV, rádio) – infelizmente, sucesso de milhões de ouvintes dentro do MySpace não garante continuidade na carreira. A tendência, contudo, com o aumento de produções de qualidade e a legitimação dada, mesmo que indiretamente, pela mídia analógica ao utilizar o conteúdo amador, é a internet se consolidar como espaço cultural (com boas produções inquestionáveis) e comercial (investimento e retorno financeiro não somente especulativo).

Quero reconhecer que muitas das minhas opiniões não possuem base empírica formal, são apenas reflexos da observação do comportamento e do próprio uso da rede. Acredito, ainda assim, que a utilidade de exteriorizar estas observações seja propor um debate sobre o caminho que estamos seguindo na cibercultura. Não há discursos certos; o radicalismo de Keen ou os discursos ciberutopistas não podem ser usados para esconder outras vertentes de pensamento – o momento é de adaptação das mídias tradicionais, das novas mídias digitais e, acima de tudo, dos nossos próprios comportamentos e crenças.

Afinal, na realidade digital, somos todos amadores.

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