Fim da Violação de Privacidade

Orkut, Twitter, fotoblogs, Youtube, blogs… Todos aplicativos que existem em função do que o usuário alimenta de informação. E que informação é essa? Basicamente, coisas pessoais e privadas.

Esse texto foi escrito em meados de 2008, mas acho que ainda está valendo…

A segmentação e individualização do conteúdo são fundamentais em qualquer mídia que queira sobreviver na Sociedade da Informação. Cada vez mais o usuário buscará por informação sob medida para ele. Para isso, o processador (englobando computador, provedor, produtor de conteúdo, emissora de radiodifusão, portal de internet…) tem que conhecer seu cliente. Os agentes inteligentes (softwares ou produtores) precisam de informação privilegiada para conseguir calcular o que o usuário quer.

A indústria de mídia, portanto, investe em iniciativas que privilegiem o cadastro – não aquele simples formulário com nome, idade e sexo, mas uma completa ficha com a personalidade, gostos pessoais, currículo etc. Soma-se a este investimento o desejo da própria pessoa em inserir-se em uma comunidade – o indivíduo não precisa mais ser vigiado, ele mesmo opta por se exteriorizar e se tornar visível. A cibercultura valoriza mais a comunicação que a própria mensagem – o importante é interagir. O usuário cria, então, um personagem virtual, um avatar que espelhe a sua individualidade, a fim de participar da sociedade.

Sites de relacionamento concentram inúmeras informações pessoais: preferências musicais, melhores filmes, estado civil, idade, personalidade, opção sexual, hábitos, formação profissional, fotos, vídeos e por aí vai. Tudo disponibilizado pelo próprio usuário. O sistema de filiação em comunidades completa a personalidade de forma indireta, porém satisfatória.

Em micro-blogs, o usuário coloca por livre e espontânea vontade a sua rotina – o que está fazendo naquela hora. Analisando a página do perfil podem-se descobrir vontades, manias, desejos, hábitos, paixões…

Com o Orkut.com e Twitter.com qualquer pessoa consegue traçar o perfil de alguém. Há pessoas até que disponibilizam contatos (telefone, endereço, e-mail)! Se não bastasse esta explanação de dados pessoais, através de um maschup com o Google Maps (ou qualquer ou aplicativo de mapas) podemos indicar onde estamos.

É praticamente um convite para ser abordado no meio da rua. Pequeno problema: um criminoso sabe como você é (viu sua foto no Orkut), sabe o que está fazendo (seguiu pelo Twitter) e agora sabe exatamente onde está! Não é nem um pouco complicado te extorquir, seqüestrar ou roubar. E quem deu as informações necessárias foi você mesmo.

O uso destes dados pessoais por empresas, como bancos e lojas, para criarem um cadastro de mala direta não pode ser considerado ilegal porque o próprio detentor dos dados disponibilizou o conteúdo abertamente. A financeira de cartão de crédito não precisa mais violar os meus cadastros em bancos ou assinatura de revistas. É só entrar no meu Orkut que está tudo lá! Nós estamos passíveis de receber cada vez mais spam e mala direta; principalmente porque as empresas estão certas do que você gosta.

Nunca o direito à inviolabilidade da vida privada, intimidade, honra e imagem citados no art. 5º, inciso X da Constituição Federal foi tão fácil de ignorar.

Individualização não quer dizer divulgação. Obviamente, o poder de aproximação que a criação dos perfis possibilita é notável; as pessoas têm a chance de agrupar-se em comunidades específicas, feitas sob medida (o viver em comunidades virtuais – se são ou não anti-sociais – é outra discussão que merece atenção exclusiva). O que não podemos esquecer é o fato da Web ser aberta, qualquer um tem a possibilidade de acessá-la. A cautela não pode ser deixada de lado por modismos.

O culto ao amador está na moda novamente, após passarmos por uma cultura de massa da celebridade (basta assistir aos programas de fofocas), com as novas tecnologias de comunicação, as duas tendências passam a coexistir e trabalhar juntas: o fulano desconhecido do BBB sai da casa e tem sua vida defasada no TV Fama. E estamos falando de TV aberta, radiodifusão. Na internet, essa vontade de aparecer, de criar novas personalidades e divulgá-las, é bem mais fácil.

A violação de privacidade deu lugar ao consentimento – a um convite sem destinatário para que sua vida seja totalmente escancarada.

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