Acreditem, celular ainda serve para falar!

A economia desde fins do século XX gira em torno de serviços. Nos EUA, por exemplo, a maior parte do PIB vem da área de serviços, não mais da indústria. O produto em si perdeu seu valor sobre o que podemos fazer com ele. Para um carro, não basta apenas possibilitar o deslocamento; quando se compra um automóvel, analisam-se todos os serviços agregados: vidro elétrico, som, direção hidráulica, air bag, estofado… O mesmo ocorre com os celulares: sua função original perdeu-se no meio de tantas ferramentas possíveis e disponíveis.

O primeiro celular – criado pela Motorola em 1973 e comercializado só em 1983 – pesava um quilo e possuía como função exclusiva a fala. O celular, portanto, surgiu com o objetivo de possibilitar a comunicação móvel. Em 1993, um celular da IBM integrou funções de um PDA: além de telefone, era pager, agenda, e-mail e calculadora – fora a mobilidade, novos serviços eram disponibilizados. A partir de 1996, com o Motorola StarTAC, iniciou-se uma preocupação com o design; não bastava ser útil, o celular precisava ser bonito. A partir destas três características, o celular evoluiu até hoje.

O caminho natural de qualquer tecnologia é, com o tempo, baratear-se; ou porque o custo de produção diminuiu ou por ter-se tornado obsoleta. Assim, o preço do celular, que começou em torno de quatro mil dólares, pode ser adquirido de graça. Dois atores são importantes neste momento: as operadoras de telefonia móvel, que não lucram com aparelhos, mas com o serviço prestado; e as empresas fabricantes de celulares.

Como atrair o consumidor? As operadoras distribuem celulares visando à fidelização ao serviço de telefonia. O consumidor encontra-se, então, em uma situação confortável: aparelhos baratos e até de graça (a dificuldade é escolher o plano). Neste momento, as empresas capitalistas adotam estratégias para atrair o consumidor: todo celular tem a função de comunicação falada, mas agora terá também a possibilidade de enviar mensagens de texto; ou tirar fotos; ou gravar vídeos; ou jogar; ou tudo isso e mais um pouco.

Podemos separar as funcionalidades do celular em duas categorias: a primeira, mais interna, englobaria funções “administrativas”, como Calendário, Cronômetro, Despertador, Agenda, Notas; a segunda, e considerada como diferencial, pode ser representada por funções aparentemente mais elaboradas, como fotografar, gravar vídeos, ouvir música, enviar e receber e-mails ou textos (SMS), editar fotos, acessar a internet, baixar programas, escrever textos ou planilhas, jogar…

O celular transformou-se em uma central multimídia. A maioria das pessoas não escolhe o aparelho pensando na melhor qualidade de comunicação por voz, os itens analisados vão desde características sofisticadas, como a possibilidade de enviar SMS, tirar fotos (inclusive, os aparelhos de hoje possuem, além da alta resolução, a presença de lentes fotográficas profissionais), jogar e baixar conteúdo, até as mais simples, como o número de toques disponíveis ou a presença de despertador. As funções de um computador foram minimizadas em um aparelho que cabe na nossa mão. Através de seu pequeno teclado, podemos enviar mensagens para o MSN ou para o Twitter; podemos até, através de um serviço possibilitado pelas operadoras de telefonia (que não funciona, ainda, no Brasil: o site Qik, por exemplo), realizar transmissão de vídeo em streaming ao vivo pela internet.

A adoção do padrão japonês de TV digital, cujo espectro de radiodifusão separa um segmento exclusivo para dispositivos móveis e portáteis (1-seg), acrescentou mais uma funcionalidade para o celular: receptor de transmissão aberta de televisão. Além de vídeos on demand (baixados ou simplesmente copiados para o celular), podemos captar o sinal de radiodifusão e assistir na tela do celular.

Com a criação de sistemas operacionais para celulares (Android, Windows Mobile, Symbian, OSX), a aproximação com os computadores cresceu ainda mais. O usuário pode baixar não apenas músicas ou jogos, mas também vídeos e aplicativos variados. As possibilidades de turbinar o celular vão desde aplicativos úteis, como o SpeakSMS, que traduz as mensagens de texto em som, aos duvidosos, como Call Cheater Manager, que simula uma ligação para lhe tirar de uma reunião chata. O paradigma personalizado, customizado, interativo, virtual, da Web 2.0 chegou ao celular: layout com papéis de paredes pessoais, gerenciadores de conteúdo personalizados, programas escolhidos e instalados por conta própria, toques feitos pelo próprio usuário… O download de aplicativos contribui também para a longevidade do uso do celular. Ao invés de trocar rapidamente de aparelho, as opções de atualização permitem ao usuário curtir por mais tempo o celular comprado – quando enjoar de um aplicativo é só procurar por outro que seja mais interessante.

É difícil saber o que veio antes: a necessidade pela convergência dos gadgets ou a disponibilização desta configuração com propósitos capitalistas. Obviamente, a cibercultura pede e se compõe por características como mobilidade, rapidez, interatividade, experimentação. No fim, não importa se é consequência ou imposição, interessante nisso tudo é perceber que um aparelho criado para comunicação móvel por voz é usado prioritariamente, e escolhido desta forma, por ser máquina fotográfica, mensageiro instantâneo, videogame, televisão, e-mail, internet, agenda, tudo menos por ser um telefone.

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