Incoerências da Vida 5 – Especial Carnaval

(já aviso que não gosto de carnaval)

Quando era criança, vestia-me de bate bola com meu irmão e ia para as ruas fazer festa. Ficávamos juntos com a família brincando e comendo durante todo o dia. Depois voltávamos para casa descansar. Quando cresci, passei a viajar no período do Carnaval. O objetivo era sair com os amigos, curtir o feriado e conhecer mulheres. Casei. O Carnaval se transformou em um feriado como outro qualquer; período para descanso e diversão com minha mulher, família e amigos.

Minha relação com o Carnaval nunca foi muito próxima. Para mim, sempre foi um feriado. Não curto samba nem desfile. Minha opinião sobre o Carnaval é a mesma há alguns anos, mas esperei o fim deste carnaval para expor mais esta incoerência.

Há algum tempo, levantou-se a questão sobre a venda de cartões postais com mulheres de biquíni. Acho que criaram uma lei que proíbe a comercialização deste produto. Realmente, o Brasil não é somente bundas gostosas e bronzeadas.

Visto isto, deveríamos também proibir o Carnaval. Afinal, como este período é vendido para os turistas? Revistas e jornais dão destaque às mulheres seminuas; o desfile das escolas de samba sempre possuem mulheres seminuas (além das “madrinhas”); vídeos promocionais são editados mostrando as belezas do Rio de Janeiro, e no meio delas estão as bundas; a televisão faz questão de mostrar as dançarinas, expondo seus corpos sarados e… seminus.

Sou homem. Aprecio ver mulher pelada ou seminua. Mas é uma incoerência o discurso que o brasileiro tem quando falam mal do nosso país (no quesito turismo sexual), cuja uma das ações foi proibir os cartões postais com mulheres peladonas, e apoiar o carnaval, que não passa de um culto ao efêmero, representado pelo corpo nu e o sexo. Não é um pedaço de papelão que influencia a opinião dos estrangeiros sobre nosso país, é todo o clima livre do nosso Carnaval (que não se limita a fevereiro). Para proibir cartões postais, teremos que proibir o carnaval como ele é representado hoje.

Este ano, fui ao desfile das escolas de samba. Pude perceber que por trás de toda a corrupção, ganância, oportunismo, interesses mercadológicos e apelo sexual, há uma pitada de cultura. Os carros alegóricos, as fantasias, a coreografia são bens artísticos no Carnaval. Mas ainda são fracos, em função de tudo que precisam combater para serem apreciados.

Assim como o futebol, o desfile de Carnaval é muito valorizado. Tudo é muito grandioso e, por isso, caro. A incoerência está no cidadão comum, pobre, que luta e sofre para que sua escola seja campeã; enquanto que poucos, muito poucos, lucram fortunas com a competição (carnavalescos e empresas). Na apuração transmitida pela Rede Globo, fiquei espantado com o contraste entre o carnavalesco, bem vestido, com cordões de ouro, relógios caros e óculos mais ainda, e o povão na quadra, suado, sujo e mal vestido. Da mesma forma que no futebol, vale a pena dar o pouco dinheiro suado que o povo tem para que algumas pessoas enriqueçam, e muito? É muita incoerência investir em algo que não trás nenhum benefício real e duradouro, apenas bem estar instantâneo. Realmente, o carnaval (e futebol) são o ópio do povo.

Outra incoerência é o clima de vale tudo. Festejar a liberdade, o fim das amarrar sociais e racionais é nobre, mas não podemos esquecer que nem todos querem libertinagem. As regras ainda se aplicam, apesar do clima dionisíaco. O objetivo deveria celebrar o fim dos limites, mas ainda dentro deles.

Passeando pelos blocos de rua, pude ver carros na contramão, homens e mulheres fazendo xixi, vomitando e brigando, carros estacionados em local proibido, garrafas de água (da bica) custando R$ 3,00, engarrafamento, enorme quantidade de lixo, barulho sem fim… O Carnaval potencializou quase todas as mazelas sociais do carioca – e sempre com o discurso do “vale tudo”.

Para não ser taxado de ranzinza ou mal humorado, também vi coisas boas nas ruas. Vi alegria, felicidade, paixão… Mas meu sorriso se perdeu quando senti o cheiro vindo do banheiro químico e quando percebi que estava parado em cima de uma poça de vômito.

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2 Respostas para “Incoerências da Vida 5 – Especial Carnaval”

  1. Concordo com tudo o que foi falado e ainda acrescento que uma coisas mais absurdas do Carnaval é o que aconteceu nesse ano, com a enorme quantidade de blocos de rua no Rio de Janeiro. Quem não queria participar da folia era obrigado a ficar “ilhado” em suas residências, pois era impossível sair de carro de determinadas regiões. Por que os blocos não são feitos somente nas grandes vias como, por exemplo, o Aterro do Flamengo, ou nas pistas das praias? Fazer blocos em ruas que são gargalos nos bairros é um dos maiores absurdos, além de ser um desrespeito aos direitos daquelas pessoas que não gostariam de participar da folia…

  2. MCarmo Diz:

    Eu acho que vou concordar sempre com vc! (rsss…) Parabéns!!!

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