Subjetividade e tecnologias digitais

Primeiro uma explicação sobre o texto a seguir.

Ele foi feito quando estudava para a prova do processo de seleção do Mestrado. Fiz um estudo e montagem do conteúdo de diversos autores, como Santaella, McLuhan, Castells, Primo, Felinto, Nietzsche etc.

Senti necessidade de publicar aqui em função da realidade que estamos vivendo, através da criação de perfis, comunidade virtuais, avatares. A nossa cultura de exteriorizar a consciencia foi reconfigurada com os filmes Avatar e Substitutos (não por causa deles, mas são um exemplo disto). Precisamos pensar neste desejo do indivíduo de não somente se criar virtualmente, ou criar um novo indivíduo na rede, mas também de trazer para a realidade sensível, independente do próprio corpo, esta outra subjetividade com o propósito de fazer parte de uma nova comunidade.

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Para a psicologia social, a subjetividade constitui o mundo interno do indivíduo: emoções, pensamentos, sentimentos. Sabe-se, desde Freud, que o subjetivo é uma construção, que se sustentava sobre a ilusão de limites corporais mais ou menos estáveis. O descarnamento da subjetividade provocado pelas novas tecnologias tirou o chão dessa ilusão de estabilidade. A subjetividade moderna se constitui através do jogo de visibilidades e identidades, de olhares e individualidades. A cultura digital desfez a configuração estável e linear do sujeito através da virtualização e hibridização do corpo, de uma nova relação entre e ciência e religião, homem e máquina, e, finalmente, da recriação da subjetividade.

A evolução das tecnologias, juntamente com a atualização da cultura, culminou com a formação de uma cultura digital, também chamada de Cibercultura. Este novo padrão de comunicação pode ser identificado pela operação simultânea de cinco processos: integração (hibridismo), interatividade, hipermídia, imersão e narratividade.

As novas tecnologias digitais e a Internet possibilitaram a criação de um imaginário tecnológico caracterizado pelo conjunto de representações sociais e fantasias compartilhadas que formam nossas concepções sobre as tecnologias. Após a morte da imagem tradicional de Deus, declarada por Nietzsche, o homem buscará a experiência do sagrado na ciência (tecnologia). Uma religião das máquinas forma-se através do imaginário da transcendência visando à superação e aperfeiçoamento do homem através da tecnologia. Mais que extensões do homem, as tecnologias propiciam a ultrapassagem da condição humana.

Duas questões importantes na construção de subjetividades são a configuração do corpo e a formação de identidades (consciências). Uma peculiaridade da espiritualização pós-moderna é a desmaterialização. Na tecnocultura, as tecnologias do imaginário permitem a expansão e construção de consciência e a desmaterialização e hibridização do corpo. Cria-se uma nova visão do ciborg: além do híbrido homem-máquina, acrescenta-se a simulação digital (avatares, cibercorpos digitais).

Na era da eletricidade, nós mesmos nos vemos traduzidos mais e mais em termos de informação, rumo à extensão tecnológica da consciência. Podemos traduzir a nós mesmos em outras formas de expressão que nos superam. O processo de reprodução maquínica do corpo chegou a um ponto em que é o cérebro que está sendo reproduzido parte por parte em computadores.

O tema da mudança dos modos de consciência pode ser acompanhado em dois momentos distintos: mudança da oralidade para a escrita (modelo de consciência tribal, coletiva, apta a lidar com a simultaneidade, cede espaço a uma forma de consciência individualizada, fragmentada, apta a lidar com o seqüencial e analítico); e passagem das sociedades fundadas em torno da escrita para uma em que se organiza em função do advento das mídias eletrônicas (mudança de um modo de consciência individual para um modo conectivo, estendido, exteriorizado e não-linear, capaz de lidar com o simultâneo novamente, porém, de forma ainda mais complexa).

A sociedade informacional produz uma reconfiguração da linguagem, constituindo sujeitos culturais fora do padrão do indivíduo racional e autônomo que caracterizou a cultura impressa. Esse sujeito se transforma na era digital em um sujeito multiplicado, disseminado e descentrado, continuamente interpelado como uma identidade instável, instaurando formações sociais que não podem ser chamadas de modernas, mas pós-modernas. É através da linguagem que o ser humano se constitui como sujeito.

Lacan demonstrou que o ego é, na realidade, uma coleção desordenada de identificações e que a ilusória unidade do eu é uma projeção do imaginário. Com as tecnologias digitais, o sujeito pode exteriorizar estas diferentes identificações. O corpo deixa de ser um limite efetivo da posição de um sujeito; o ego está subvertido e disperso pelo espaço social.

Com a eliminação do corpo, ocorre uma virtualização da subjetividade; as tecnologias do imaginário têm a pretensão de reconfigurar o self, de remodelar as subjetividades. O sujeito pode criar corpos híbridos para cada subjetividade; pode construir personas no ambiente simulado.

Devido às tecnologias comunicacionais contemporâneas (weblogs, webcams, youtube, redes sociais etc), percebemos que a subjetividade é associada aos dispositivos de visibilidade. Se os dispositivos modernos escavavam uma subjetividade interiorizada, os dispositivos contemporâneos vêm contribuir para a constituição de uma subjetividade exteriorizada onde vigoram a projeção e antecipação.

O que define a subjetividade é um campo superficial de atitudes (ações), não uma análise de personalidade (interioridades). É da exterioridade da ação e do comportamento que se extrai ou se projeta a subjetividade, com uma identidade e uma individualidade que não estavam previamente presentes – trata-se de uma subjetividade que se constitui prioritariamente na própria exterioridade, no ato mesmo de se projetar e de se fazer visível. O usuário, assim, constitui suas subjetividades ao criar comunidades no Orkut, expor fotos de sua vida particular, postar vídeos no Youtube gravados através do celular, dizer no Twitter o que está fazendo. Todo esse conjunto de ações exteriorizadas representa a criação de subjetividades que não necessariamente correspondem a sua personalidade prévia.

A tendência inaugurada na Modernidade, através da digitalização e da internet, é a volta da incidência do foco de visibilidade sobre o indivíduo comum, aspecto decisivo na produção de subjetividades e identidades – vide youtube e reality shows. A visibilidade do amador é tão importante quanto à vigilância sobre aqueles que detêm o poder (elites).

O indivíduo na contemporaneidade é múltiplo e, através das tecnologias digitais, consegue exteriorizar esta multiplicidade de consciências em subjetividades virtuais. Uma das consequências mais flagrantes da cibercultura é a formação de comunidades virtuais. Todavia, o indivíduo não tem seu vínculo coletivo nem sua identidade assegurados de antemão pela tradição, por isso deve construí-los através de seu engajamento espontâneo na diversidade das formas coletivas de agrupamento. Com isso, a construção de subjetividades múltiplas e virtuais é fundamental para a inserção do sujeito, agora com identidade imaterial e instável, na coletividade.

Uma resposta to “Subjetividade e tecnologias digitais”

  1. Estou fazendo um artigo sobre a fragmentação do Ego na Cultura Digital e seu texto está sendo fundamental para meu trabalho. Gostaria de coloca-lo como referência no meu trabalho. Qual seu nome completo? Você poderia me indicar seus referenciais bibliográficos para a produção deste texto?

    Grata

    Caroline S. de Araujo

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