Vigilância Digital e a Previsão de Comportamentos

Em um texto opinativo publicado no jornal O Globo, “A Trapaça do rastreador da Oi no Velox”, o jornalista Elio Gaspari trata sobre uma nova ferramenta da Oi, chamada Navegador, utilizada no serviço de internet Velox. Para ele, esta novidade é uma trapaça, uma dissimulação do seu real objetivo. Na realidade, ela é um rastreador com a função de armazenar os endereços que o usuário navegou em determinado computador.

O registro cria um banco de dados segmentado para, com isso, direcionar a publicidade. A Oi afirma que a identidade do usuário é preservada. O problema está na forma como ele é utilizado. Além de não explicar verdadeiramente a função de rastreamento, a Oi não fornece a opção para o usuário de registrar-se no serviço. Há, no entanto, a possibilidade de desativar a ferramenta. Esta opção, segundo Gaspari, é um absurdo, pois uma pessoa não deveria desativar algo que não solicitou.

O universo digital inaugurou uma nova forma de vigilância e controle. Através desta vigilância, a nossa privacidade é afetada? E mais, como isso afeta o consumo? Será que somos constantemente observados, categorizados e controlados?

Podemos comparar a tecnologia do Navegador – ou similares – com a definição de Panóptico (imagine uma torre de vigilância dentro de um presídio…). Para Foucault, este dispositivo organiza unidades especiais que estão sempre observando e reconhecendo. Além disso, pode ser utilizado como máquina de fazer experiências; atuando no comportamento dos homens sem intervir diretamente. Uma diferença básica entre estes dois dispositivos é que no esquema Panóptico é essencial que o indivíduo saiba que está sendo vigiado (o poder deve ser visível – o vigiado consegue ver sempre o dispositivo – e inverificável – apesar de vê-lo, não deve saber se é observado, mas deve ter conhecimento de que pode ser a qualquer momento) – quando existe este reconhecimento, o próprio indivíduo valida a relação de poder existente e, com isso, pode ser controlado. No caso do rastreador da internet, é fundamental que o usuário não saiba que está sendo vigiado. Saber pode gerar um descontentamento e, pior, uma mudança do comportamento consumidor – para o usuário, reconhecer que o poder não está em si é perturbador. O controle, assim, tem sua eficácia através do conteúdo sugestivo e do reconhecimento de particularidades (usuário se identifica com o sistema criado).

Fernanda Bruno define vigilância digital como o “monitoramento sistemático, automatizado e a distância de ações e informações de indivíduos no ciberespaço, com o fim de conhecer e intervir nas suas condutas ou escolhas possíveis”. Através de programas semelhantes ao Navegador da Oi, as relações de comunicação online geram bancos de dados com informações individuais. Entretanto, simultaneamente a esses dados particularizados, as informações são desvinculadas do próprio indivíduo. Segundo a autora, “o principal objetivo não é produzir um saber sobre um indivíduo especificamente identificável, mas usar um conjunto de informações pessoais para agir sobre outros indivíduos, que permanecem desconhecidos até se transformarem em perfis”.

O perfil, neste caso, expressa as relações entre indivíduos; é mais interpessoal do que intrapessoal. Ele só se torna real quando o indivíduo se identifica ou se reconhece nele. Fernanda chama as identidades projetadas em bancos de dados de duplos digitais ou simulações de identidades, pois não representam o indivíduo, apenas “encarnam múltiplas microrregularidades no seio de inúmeras variáveis heterogêneas e, de modo algum, apresentam-se como regulamentos”.

O site da Amazon usa um programa que cria sistemas de referência e recomendação, cruzando pesquisas, compras e comentários dos usuários. Através de uma análise do banco de dados, cria sugestões e páginas personalizadas (de forma bem grosseira: se A fez X e depois Y, então, se B fizer X, aceitará Y também). Fernanda Bruno chama a atenção de que, desta forma, não são representados os desejos reais dos usuários, mas simulações destes desejos e que, se aceitos, passam para a realidade o que antes era apenas uma potencialidade.

A vigilância digital não se importa com o que o indivíduo fez ou faz, ela usa estas informações para construir um padrão de comportamento e, assim, prever suas novas ações. Não há interesse em desvendar a profundidade da alma, só há interesse sobre os fluxos de informação e comunicação.

Segundo Foucault, a disciplina fabrica indivíduos submissos, controlados, “corpos ‘dóceis” – o poder disciplinar, cuja função maior é o adestramento, controla o corpo, impõe uma docilidade-utilidade que se traduz em obediência. Através da constante monitoração, e posterior criação de padrões, a vigilância digital cumpre um dos seus objetivos: prevenção de um evento. A criação de lógicas de comportamento gera simulações das possíveis escolhas dos usuários de forma performativa e proativa.

A antecipação acaba por intervir nas escolhas, comportamentos e ações presentes, tornando efetivo o que se antecipou. O perfil criado inicialmente acaba sendo o perfil dos futuros usuários (a aparente imposição, neste caso, pode ser encarada como fator questionador da eficácia do processo ). Em suma, o controle exercido pelo Panóptico (se é que podemos chamá-lo assim) atua camuflado nas sugestões.

O armazenamento de dados em ferramentas de rastreamento é feito por máquinas; a quantidade de informação é muito grande para ser processada por homens. Com isso, cria-se um saber do coletivo, pouco importando as escolhas individualizadas. Se realmente considerarmos que o objetivo das empresas é o de prever ações para garantir uma adequação publicitária mais eficaz, então nosso medo de invasão de privacidade é irreal (o fim da privacidade, a divulgação da vida privada, parece ser um movimento feito espontaneamente pelo próprio usuário; como, por exemplo, publicar fotos e dados pessoais em redes sociais ). As informações armazenadas são relacionadas a padrões de comportamentos e não a indivíduos. Todavia, se o medo permanecer, então, como estes sistemas atuam sobre previsões e simulações, basta não clicarmos nos links oferecidos. Assim, não confirmaríamos o que antes era apenas uma suposição.

Referências

BRUNO, Fernanda. Dispositivos de vigilância no ciberespaço: duplos digitais e identidades simuladas. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho “Tecnologias de Informação e Comunicação e Sociedade”, do XV Encontro da Compós, na Unesp, Bauru, SP, junho de 2006. Disponível em http://revcom.portcom.intercom.org.br/ Acesso em 09/04/2010.

_______. Monitoramento, classificação e controle nos dispositivos de vigilância digital. Trabalho apresentado ao GT “Comunicação e Cibercultura”, do XVII Encontro da Compós, na UNIP, São Paulo, SP, junho de 2008. Disponível em http://revcom.portcom.intercom.org.br/. Acesso em 09/04/2010.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 2004

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