Algumas coisas sobre a cultura digital

O digital está aí. A internet está aí. O videogame está aí. A hipermídia está aí. A cibercultura, com todas suas “multicoisas” simultâneas, interativas e experimentais, está aí. E nós, simples indivíduos com desejos básicos de entender tudo que nos envolve, estamos aí também.

Discussões sobre o efeito das novas mídias no aprendizado estão surgindo, intensificando-se e preocupando. O que está acontecendo com nossos cérebros? Estamos ficando mais dispersos? Incapazes de focar, de nos aprofundar em um tema? O que está acontecendo com os jovens?

Assisti a uns seminários sobre o assunto e li comentários e reportagens. De fato, não existe comprovação de que o nosso cérebro foi afetado por este novo ethos – seu potencial de raciocínio é o mesmo. Entretanto, há diversos discursos pessimistas em relação às novas mídias e ao comportamento multimidiático. Os jovens leem menos, sua atenção está comprometida, não há aprofundamento das questões, perdeu-se o senso crítico… O uso das tecnologias impossibilita o real aprendizado, pois valoriza o comportamento veloz, superficial e descompromissado.

Há discursos, porém, que pregam pela necessidade de se adaptar. O modelo antigo atrapalha a nova era cibercultural, atrasa os avanços intelectuais e comportamentais. As novas tecnologias precisam ser mais bem utilizadas para acompanhar a evolução do homem. O objeto tecnológico é essencial à vida do homem, influencia e é influenciado, cria relações sociais.

A educação passa por uma crise e mercantilização forte – é um negócio e os alunos e respectivos pais sabem disso (o famoso “eu estou pagando”). Todavia, não é isso que está causando a crise. A questão está na forma como o conteúdo é passado. Na era da Informação, da superestimulação sensorial, da diversidade de opções, não funciona mais impor um modelo contrário ao padrão de comportamento do indivíduo contemporâneo. Forçá-lo a ser linear, plano, hierarquizado, é pedir pela falta de atenção e desinteresse.

Estes dois discursos (um a favor da tecnologia como parte da evolução do homem e outro contra a tecnologia, pois incapacita o indivíduo) estão em polos opostos e invalidam-se mutuamente. Na pós-modernidade, não existe uma regra global, um modelo dominante, mas sim uma simultaneidade de formas culturais; coexistem, na contemporaneidade, características diversas que multiplicam as opções para o indivíduo. Eu posso ser neoclássico, moderno, barroco, futurista; posso ser de direita, esquerda ou anarquista (vide a esquerda brasileira).

A escolha de características, antes impossibilitadas teoricamente e explicitamente de existirem em um mesmo cenário, é livre. A critica está no discurso apaixonado, cego muitas vezes, que exclui qualquer outro ponto de vista. A Razão passou a ser Razões – cada um tem a sua. Até a lógica científica está em jogo. Há um tempo, grávidas podiam beber bebidas alcoólicas; hoje, isso não é recomendado. O planeta já foi plano, centro da Via Láctea e criado em sete dias. Plutão não é mais planeta e dois ovos por semana fazem bem a saúde!

No mundo digitalizado, realmente as análises ficaram menos valorizadas. Entretanto, foca-se no que mais interessa para cada um. Ao mesmo tempo em que as fontes de estímulo aumentaram, tornaram-se segmentadas, específicas. O indivíduo se especializa no que quer; ele tem a liberdade, inclusive, de não se especializar em nada. Obviamente, é impossível para um indivíduo dominar todas as áreas de conhecimento – Leonardo da Vinci foi um gênio, mas será que com o volume de saber demandado hoje, ele conseguiria ser pintor, arquiteto, matemático, escultor, anatomista, cientista… (por favor, não estou diminuindo sua genialidade, sei que ele estava muito a frente de seu tempo).

O excesso de informação pode causar a banalização do saber. Poder causar não significa que necessariamente acontecerá. Um volume muito grande de inputs precisa de um processamento rápido – leituras superficiais, analogias fracas, segmentação em focos de interesse. Trabalhamos com amostras das informações para construir um raciocínio geral. Querer saber tudo atrapalha a própria criação de conhecimento.

Nossa mente trabalha como se estivéssemos constantemente em um festival de filmes: queremos ver tudo, tentamos ver tudo, mas somos obrigados a categorizar a experiência em uma espécie de triângulo – na ponta estão os poucos filmes realmente “degustados” e, na medida em que descemos, o volume aumenta, mas a assimilação diminui.

Por isso, o papel do mediador é cada vez mais valorizado. Chamo de mediador a função cerebral de organizar os dados em categorias, mapear o todo e incorporar partes. Uma professora uma vez me disse que não é importante ter a informação, mas saber onde consegui-la. Nosso processamento mental foca no mapeamento e registro das fontes. A memória, antes supervalorizada, agora é externa ao ser humano – não precisamos mais nos preocupar com armazenagem, temos celulares, câmeras digitais, máquinas fotográficas, HDs, pendrives, IPads, Kindles, tudo para trabalhar em nosso nome como dispositivos de registro de dados.

Seria ruim diminuir nosso trabalho mnemônico? Só porque é contra um modelo anterior? Quando a escrita surgiu, a oralidade perdeu sua força, mas não desapareceu. Somos animais orais, letrados, audiovisuais, multimidiáticos. A cibercultura é formada pela diversidade. A dificuldade está no próprio discurso, que permite, ele mesmo, invalidar-se: se tudo está certo, então o discurso que contraria este modelo também está.

Desta forma, certo e errado não existem mais – tudo é uma questão de posicionamento.  A exigência da leitura de livros na escola está correta, contanto que ela não inviabilize o uso de jogos como ferramenta educacional. O contato rápido com os conteúdos que chegam ao indivíduo, seu mapeamento geral, não está errado, na condição de que isso não impeça a formação de opiniões. Um jovem pode não saber a fundo como a estrutura legislativa do Estado funciona, mas sabe o que é corrupção ou quando uma atitude governamental demora a ser concluída. Ele pode não saber falar inglês, no entanto nada o impede de ser dono de uma emissora de TV aberta (Silvio Santos, por exemplo).

E, talvez, este nível de conhecimento seja o ideal para a sociedade contemporânea. Cada vez mais este modelo se fortifica, pois as gerações criadas pelo modelo antigo estão diminuindo (forma delicada para “envelhecendo” ou “morrendo”) e as novas possuem outra visão de mundo. Um posicionamento radical, evidente, não é necessário. Mais que uma definição exteriorizada de um comportamento, a opinião está inserida em cada ação (quem, em entrevistas com RH, consegue se autodefinir concretamente?). Aristóteles afirmava que as características são menos importantes que as ações, pois são estas que realmente definem a personalidade. O que quero dizer com isso é que o processo de mudança do comportamento, criação de novo modelo cultural ou estruturação do raciocínio lógico acontecerá independente dos desejos e opiniões dos pensadores, intelectuais, pais, professores, crentes ou descrentes, pois está além da construção teórica: faz parte da realidade do indivíduo. A adaptação é independente, obrigatória e involuntária.

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